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A flexibilização da quarentena e suas consequências à economia



No atual cenário pandêmico em que estamos inseridos, desrespeitar o isolamento social pode trazer inúmeras consequências, as quais acirrariam ainda mais os casos envolvendo o novo Coronavírus. Ao optar por ficar em casa ao invés de sair desnecessariamente, o indivíduo está protegendo a si mesmo, a sua família e a linha de frente, a qual é responsável por manter a sociedade funcionando. Caso a pessoa saia de casa por banalidades, estará correndo o risco de se infectar e a todos em seu redor, mesmo que este não apresente sintomas, fazendo com que aumentem o número de casos e, possivelmente, o número de mortes. Agora imagine que várias pessoas desrespeitem a quarentena; os casos se multiplicarão assim como as fatalidades, sendo cada vez menos provável que o distanciamento social acabe, já que o contágio não estará diminuindo. É isso que ocorrerá se os comércios reabrirem. As consequências podem ser inúmeras, não atingindo apenas a área da saúde, mas também a economia como um todo.



Isolamento vertical x Isolamento horizontal


Esse dilema está gerando inúmeros debates entre as pessoas e as empresas. O isolamento vertical, cujo o qual defende a flexibilização da quarentena, apoiando a reabertura do comércio e retorno de algumas atividades, é visto como algo que diminuiria os impactos que a pandemia trará para a economia. Algumas empresas, tais como a rede de hamburguerias Madero, os restaurante Giraffas e a Havan, assim como alguns membros do governo atual concordam com o retorno das atividades comerciais.

O dono dos restaurantes Madero, Junior Durski, postou em suas redes sociais um vídeo criticando o fechamento dos comércios. Para ele, o Brasil não pode parar por conta de "5.000 pessoas ou 7.000 pessoas que vão morrer", números que seriam baixos perto das mortes provocadas por homicídio ou desnutrição no país. "O Brasil não pode parar dessa maneira. O Brasil não aguenta. Tem que ter trabalho. As pessoas têm que produzir, têm que trabalhar. O Brasil não tem essa condição de ficar parado assim. As consequências que nós vamos ter economicamente, no futuro, serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com Coronavírus", afirmou.


Alexandre Guerra, sócio dos restaurantes Giraffas, também criticou, através de um vídeo, as medidas de combate ao Coronavírus. “Você que é funcionário, que talvez esteja em casa numa boa, numa tranquilidade, curtindo um pouco esse home office, esse descanso forçado, você já se deu conta de que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego? Será que sua empresa tem condições de segurar o seu salário por 60, 90 dias? Você já pensou nisso?”

Segundo ele, o custo na economia será alto. "Essa semana a gente teve ações que nunca aconteceram na história do Brasil. A gente vive em regime de guerra. A gente vive algo que a gente nunca viveu. As pessoas precisam ter consciência disso. A crise de 2013, 2014, 2015. Nunca tivemos suspensão da atividade econômica. Nessa semana, a gente teve suspensão do comércio. Suspensão é o seguinte, de um dia para o outro não posso abrir. Não tenho faturamento - zero faturamento -, só que tenho boletos, tenho funcionários, tenho conta para pagar."


Até mesmo o Presidente da República, Jair Bolsonaro, em um recente pronunciamento feito em rede nacional, fez um apelo pela "volta à normalidade", a reabertura do comércio e a reabertura das escolas. Na fala, ele chamou a doença de "resfriadinho", contrariou especialistas e pediu o fim do "confinamento em massa" e culpou a imprensa por "espalhar pavor".


Economistas afirmam, no entanto, que se a epidemia sair de controle, as consequências econômicas podem ser até mais graves, e que salvar vidas deve ter prioridade sobre metas fiscais anuais. Dessa forma, o isolamento horizontal para diversos economistas é a medida mais correta para se vencer a crise de saúde pública e também a crise da economia.


Reabertura de comércios pode ser ainda mais prejudicial à economia


No decorrer dos últimos dias, diversos economistas vêm argumentando que combater a crise pandêmica é o mais eficaz para se contornar a futura crise econômica.


"A causa da crise não é uma questão econômica, financeira. A causa da crise é uma pandemia, é um problema de saúde. A crise econômica vem como consequência. Então nós temos que preservar as empresas, fazer com que as empresas possam se manter em funcionamento, etc. Passar por esse período de crise, ajudar as pessoas. Mas a prioridade agora tem que ser conter a razão da crise - que é a pandemia. A razão da crise, que é a doença, preservar a vida das pessoas e depois também preservar a economia". Afirma Henrique Meirelles, ex-Ministro da Fazenda, para matéria do G1.

“A decisão de manter as empresas e os negócios em funcionamento não necessariamente garantiria o emprego das pessoas.” Afirma o economista Armínio Fraga em entrevista ao jornal "O Globo". Isso porque, segundo ele, as pessoas não sairiam consumindo mesmo que o isolamento social se flexibilize ou termine, já que as mesmas estão muito assustadas para tal.

Mesmo que os trabalhadores desses comércios tomem todas as precauções possíveis para evitar o contágio, o risco ainda é grande. Pessoas tocam em quase tudo e esse toque irá disseminar ainda mais o vírus caso o isolamento passe a ser vertical. Toques em roupas, copos, garfos, balcões, papéis, nos meios de transporte, tudo isso pode ser o motivo de um indivíduo se contaminar, e este contagiará outros e esses transmitirão ainda mais, mas como faremos para controlar esses contágios se o isolamento for flexibilizado? Como a pandemia pode ser contida com a reabertura de comércios?

É isso que a economista e professora da Fucape, Arilda Teixeira, argumenta. “Se você olhar só para o mercado, essa preocupação com as empresas fechadas faz sentido. É recessão, desemprego e falência de negócios. Porém, o risco de contágio entre os trabalhadores é tão grande que se as empresas continuarem trabalhando o cenário não será menos catastrófico. Nós vamos ter pessoas e mais pessoas precisando de atendimento sem condições de serem atendidas”. Arilda lembra ainda que as pessoas que podem morrer infectadas pelo Coronavírus também são consumidoras, trabalhadoras ou produtoras – logo, também possuem grande importância econômica. Outro risco é que, com isso, o vírus continue circulando por mais tempo pela sociedade.

"Me parece que a questão essencial agora é de saúde pública, que tem predominância inclusive sobre a economia. O fundamental nesse momento é fazer com que epidemia consiga ser reduzida de maneira de não sobrepujar a capacidade dos hospitais de atender os doentes e daqueles que vão precisar de cuidado intensivo. Se a gente permitir que a epidemia saia de controle, as consequências econômicas podem ser, inclusive, piores. Então, nesse momento, temos que deixar as pessoas em casa e pensar em alguma maneira de ajudar do ponto de vista de renda. Vai ter que passar pelo Estado, vai nos custar muito caro”, afirma Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.

Estudo do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostra que, quanto menor o período de isolamento social, menos intensa deve ser a queda da economia, e a implementação das medidas econômicas já anunciadas podem garantir uma retomada mais rápida a partir de agosto.

O consenso entre parte dos economistas, dessa forma, é que o isolamento horizontal é o mais indicado para se combater a pandemia. Para se evitar mais danos econômicos, deve se preocupar com a saúde das pessoas, já que são elas que movem a economia. O isolamento social, quanto menos tempo durar, irá contribuir para uma mais fácil e rápida volta da economia, mas caso ainda haja oscilações sobre quais medidas devem ser adotadas, mais tempo durará a pandemia e mais difícil será o retorno econômico.


Países que já estão retornando suas atividades econômicas

Na pandemia da gripe espanhola, cidades que agiram mais cedo e com mais força tiveram desempenho econômico melhor”, afirma Pedro Menezes, do Instituto Mercado Popular, em coluna para o Infommoney.


Os países que agiram rápido contra a disseminação do vírus, implementando rigorosas medidas de contenção, estão contornando a pandemia e já começam a flexibilizar seu isolamento e retomam suas atividades econômicas. Dentre eles estão a Dinamarca e a Alemanha. A Argentina ainda não está em isolamento vertical, mas está próxima disso.

DINAMARCA

Após mais de um mês em quarentena contra o Coronavírus, a Dinamarca começou a retomar as atividades no país e mostrou que o plano de contenção da COVID-19 parece ter dado certo. Uma das primeiras nações europeias a fechar fronteiras, lojas, escolas e restaurantes, além de proibir aglomerações, a Dinamarca registrou 7,2 mil casos de infecção e apenas 336 mortes, uma das menores entre as grandes economias da zona do euro.

Segundo a CNN, o país tem visto uma queda contínua nas internações. Mais de 500 pessoas foram hospitalizadas com o Coronavírus em março, número que caiu para 353 este mês, muito inferior em comparação com outros países que estão no caminho inverso.


O plano de retomada foi anunciado pela Primeira-Ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, no início de abril. As escolas, por exemplo, puderam retornar às aulas com novas medidas de higiene e um distanciamento rigoroso de dois metros entre os alunos. Passada a fase um, de retomada mais leve, a partir do dia 20 de abril houve o retorno das atividades nos tribunais, pequenas empresas, como salões de cabelo, e autoescolas.

ALEMANHA

A Alemanha pôde, enfim, começar a relaxar as medidas de quarentena graças à rápida detecção de casos. O país tem capacidade para fazer 160 mil testes por semana para detectar o Coronavírus. É um dos países que mais testaram sua população. Isso permitiu que as autoridades isolassem os infectados e diminuíssem a propagação do vírus. E também usar respiradores antes que a condição de uma pessoa infectada se deteriorasse completamente. Sua grande capacidade hospitalar e o rigoroso cumprimento do distanciamento social também ajudaram o país a retornar à "normalidade".

A Alemanha já reabriu suas lojas, mas o número de infectados ainda é grande.

"No momento, as medidas estão sendo levantadas levemente. Manter distância e higiene das mãos são mais importantes do que nunca. Devemos continuar monitorando a situação de perto", diz Marieke Degen, do Instituto Robert Koch de Virologia, responsável pela estratégia alemã contra a COVID-19, à BBC News Mundo. Além disso, o governo anunciou que o uso de máscaras seria obrigatório no transporte público e nos supermercados.

Entretanto, houve um aumento de casos na Alemanha após essa decisão de flexibilização ainda com números altos de casos, fator que mostra que se o Brasil decidisse pelo isolamento vertical e a reabertura dos comércios, acabaria agravando a situação já crítica do país.

ARGENTINA

Com menos de 4.400 casos de Coronavírus, a Argentina é um dos poucos países do mundo que estão conseguindo domar a COVID-19. Há um mês, as projeções apontavam que o Coronavírus poderia explodir na Argentina, contaminando mais de 45.000 pessoas, se o confinamento não fosse levado a sério. Por isso, o governo lançou mão de estratégias restritivas.

Desde o início da pandemia, foram adotadas medidas duras para controlar a propagação do vírus, tais como um decreto proibindo a população de sair à rua, a não ser que fosse para ir à farmácia e ao supermercado; funcionários públicos e outros profissionais que precisam exercer atividades presenciais devem ter à mão uma autorização para circular pelas cidades; quem tem de sair de casa para atender alguma emergência precisa estar munido de documentos que comprovem o motivo alegado para romper a quarentena; o funcionamento de locais onde muita gente costuma se reunir, como parques, feiras livres, mercados populares e shoppings, foi vedado desde o início da quarentena e policiais estão nas ruas fazendo a fiscalização.


O governo também não cedeu à pressão de entidades de classe e grupos empresariais para reativar a economia antes do tempo. A diferença é que as pessoas poderão sair durante 1 hora para atividades recreativas a uma distância de até 500 metros da casa delas. A retomada econômica deverá ter pelo menos três fases. “Sabemos que muitos argentinos precisam voltar a seu dia a dia, mas precisamos dar esse passo com cuidado”, disse o Presidente argentino, Alberto Fernández.


Mas por que esses países podem retomar as atividades econômicas e o Brasil não?


Diferentemente do Brasil, desde o início países como Dinamarca, Alemanha e Argentina estão respeitando as medidas de distanciamento social. No Brasil apenas 52% da população está em quarentena, tendo por consequência disso 127.655 casos do novo coronavírus, com 8.609 mortes, até o momento da dissertação deste artigo.


Se com apenas 52% de isolamento os casos estão se multiplicando, caso flexibilize a quarenta o contágio vai ser ainda maior e mais rápido, e então, ao invés dos comércios estarem fechados com seus funcionários em casa, passarão a estar fechados com os trabalhadores doentes e internados. Cada vez mais a situação do Brasil está se agravando e, caso não houver rigorosidade no isolamento, o país não contornará a crise pandêmica e muito menos a econômica.


A visão estratégica, sendo assim, é compreender que a crise econômica é efeito da pandemia e não do isolamento. A capacidade produtiva não seria mantida sem a quarentena. Quanto mais rápido o Brasil executar o isolamento social e fazê-lo ser respeitado, mais rápido sairá da crise de saúde pública e, por consequência, se tornará mais um dos países que superaram a pandemia e estão adotando o isolamento vertical, contudo, isso só pode ocorrer se e quando os casos diminuírem significativamente.


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