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CORONAVÍRUS E O COMÉRCIO EXTERIOR: um impacto econômico em escala global



O comércio exterior não é movido apenas pela economia, mas também por boas relações entre os países, acordos e liberações de transportes entre as nações. Dessa forma, o mercado internacional não gira em torno apenas de produtos e preços, e sim das convenções estabelecidas entre os Estados que visam o melhor para si mesmo e sua população. Portanto, com a pandemia da COVID-19, os países foram recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a restringir as importações e exportações e tais restrições foram adotadas para proteger seus habitantes e, além disso, com as economias pelo mundo desaquecidas, crescem os obstáculos para que empresas de diferentes lugares comprem e vendam bens entre si.

A seguir, veremos quais os impactos para o comércio exterior do Brasil e do mundo e suas projeções.


Por que o Coronavírus impactou as importações e exportações?

As medidas de isolamento social implantadas, extremamente necessárias durante a pandemia, impactaram a produção industrial global e, consequentemente, o número de importações e exportações. Durante o mês de abril, a produção industrial brasileira passou por uma queda recorde: com relação ao mesmo mês no ano passado, a produção industrial sofreu uma diminuição brusca de 27,2%.


Essa diminuição alarmante da produção tem várias causas e uma delas se dá pelo fato de que muitas das indústrias ficaram boa parte do mês de março e quase todo o mês de abril paradas. Tal paralisação ocorreu em várias unidades produtivas e nos mais diversos segmentos industriais, não apenas no Brasil, mas em todo o planeta. Com a queda na produção, as exportações dos produtos industriais brasileiros diminuíram, assim como as importações dos mais variados produtos estrangeiros. De maneira simples, com as indústrias paradas, não há produção e não há escoamento.


Ademais, muitas indústrias sofreram com a falta de abastecimento de matérias-primas ou peças. Com problemas para adquirir peças e componentes, muitas linhas de produções industriais estão paradas, impedindo a produção do produto final e a exportação do mesmo. Alguns setores da economia sofrem mais com isso, como o de produtos eletrônicos, tendo como exemplo a Apple, Motorola e a LG. A Apple, empresa multinacional de eletrônicos de consumo, como smartphones, tablets e computadores, sofre durante os meses de pandemia com a falta de peças para reparo de iPhones devido às diminuições de produção, ocorrida na China, e de distribuição dos itens devido às consequências do novo vírus.


É interessante mencionar como no Brasil há uma escassez de contêineres vazios para a realização de exportações, pois muitos destes não voltam da China, que não envia mais tantos navios de exportação para o país. Com relação às importações, sobretudo vindas do país asiático, há problemas com embarques atrasados, documentação faltantes, cancelamento da vinda de produtos e atraso nos desembarques.


Com as consequências da pandemia, o mundo passa por grandes recessões. Nestas, a tendência é uma diminuição no consumo global e, dessa maneira, o número de importações e exportações dos países também diminui. O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez projeções que apontam uma retração no PIB global em cerca de 3%.

Impactos da COVID-19 nas importações e exportações brasileiras


Os componentes do comércio internacional brasileiro vivenciam os desdobramentos da pandemia desde janeiro de 2020. O motivo principal desses reflexos é a importância que a China possui para a economia do Brasil. Segundo o Ministério da Economia, o país é o maior parceiro comercial brasileiro, ocupando a primeira posição como o principal destinatário de exportações do Brasil, além de ser o que mais vende para o mercado doméstico. No momento em que o governo chinês decretou a extensão do feriado de Ano-Novo Lunar, que ocorre no mês de fevereiro, para contenção da propagação do vírus, o Brasil foi atingido como um efeito dominó devido a paralisação das fábricas por período superior ao ordinariamente previsto.


Durante o alastramento da COVID-19, em um cenário de incertezas, a cotação do dólar se elevou a patamares superiores a R$5,00. Essa cotação atinge o importador brasileiro que ainda conseguia manter-se produtivo, mesmo com as dificuldades logísticas e de fornecimento. Entre a lista de serviços públicos e atividades essenciais que o Decreto 10.282/2020 determinou, encontra-se os serviços necessários à logística das importações e exportações brasileiras, como embarque e desembarque de cargas, despachos aduaneiros de importação e exportação, inclusive vigilância agropecuária internacional, transporte e entrega de cargas em geral e fiscalização tributária e aduaneira.


Entre os efeitos da pandemia, a diminuição da quantidade de navios saindo da China provocou uma escassez dos equipamentos para a realização das exportações. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que a pandemia do novo coronavírus pode provocar a redução de pelo menos 8,25% dos US$225,4 bilhões exportados em 2019. Em termos de volume, a diminuição prevê uma redução de 56 milhões de toneladas. A CNI afirma que a projeção é preliminar, já que a base utilizada é de um cenário de recessão global ampla. No caso chinês, a perspectiva para o ano de 2020 é uma redução em até US$2,796 bilhões das exportações brasileiras de commodities, e uma queda de US$524 milhões entre as exportações de alimentos processados, embora haja alta em produtos agrícolas brutos, como algodão e grãos.

Impactos da COVID-19 nas importações e exportações mundiais


A perspectiva no cenário internacional é de uma recessão nos próximos momentos. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgados em junho de 2020, o comércio exterior caiu 5% no primeiro trimestre do ano, e a previsão para o segundo trimestre é de 27%, além de um declínio anual de cerca de 20%. Para os países em desenvolvimento, a situação é mais alarmante: as projeções mostram uma rápida deterioração. Enquanto o comércio Sul-Sul viu uma queda de apenas 2% no primeiro trimestre do ano, dados da UNCTAD mostram uma queda drástica de 14% em abril. No primeiro trimestre de 2020, têxteis e vestuário caíram quase 12%, enquanto setores automotivo e de maquinário caíram cerca de 8%. Por outro lado, o valor do comércio internacional no setor de agropecuária e alimentar, que tem sido o menos volátil, cresceu cerca de 25%.


Na reunião virtual do G7 (grupo das sete maiores economias do mundo) que ocorreu em abril de 2020, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e o Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, destacaram a importância do comércio internacional para superar a crise do Coronavírus e garantir uma recuperação econômica. Durante o mês de maio, a Organização Mundial do Comércio apontou que seu indicador atingiu o nível mais baixo desde sua criação, o que reflete a queda do comércio global devido aos problemas causados pela pandemia. Em comunicado, a UNCTAD afirma que a tendência de declínio para o comércio global, registrada de janeiro a março, deverá se acentuar nos próximos meses, chegando a uma redução de até 27% de trimestre para trimestre.

Projeções para o comércio exterior

Um estudo de pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) tentou estimar qual vai ser o tamanho da queda sofrida pelo comércio global no cenário da pandemia.

Os próprios pesquisadores destacam que fazer previsões em meio ao cenário incerto é uma tarefa difícil – os fatores que podem variar de forma imprevisível são muitos, o que compromete boa parte das metodologias que normalmente são aplicadas nesse tipo de projeção.

O estudo lista os principais fatores que podem interferir com as projeções sobre o comércio internacional, influenciando os cenários tanto para o bem como para o mal. Segundo o Instituto, os fatores com possíveis impactos negativos são mais numerosos que os positivos. Mesmo na visão mais otimista, a expectativa para o comércio internacional é de tombo.


  • FATORES POSITIVOS

Efetividade de Políticas Econômicas

Um fator que poderia ajudar a economia global a ter um desempenho melhor do que o esperado é a efetividade das medidas tomadas pelos governos ao redor do mundo. Ainda não se sabe qual será o efeito das ações econômicas lideradas pelos poderes públicos. O que se sabe é que a reação, no geral, foi rápida e volumosa, o que pode gerar resultados melhores do que os esperados em um primeiro momento.

Eficiência no Combate à COVID-19

Outro fator que pode ajudar é o avanço da ciência no combate à pandemia. É impossível saber se e quando os esforços científicos chegarão a resultados e descobertas concretas. Mas se isso ocorrer mais cedo do que o imaginado, o impacto da pandemia sobre a atividade econômica será atenuado.


  • FATORES NEGATIVOS

A Longevidade da Pandemia

Não se sabe quanto tempo a pandemia e seus efeitos restritivos irão durar. Caso o período seja mais longo do que o esperado, ou caso haja novas ondas de disseminação do novo Coronavírus, os impactos sobre a economia podem ser duradouros.

As Rupturas nas Cadeias

A crise está levando muitas empresas a reformularem suas cadeias de fornecedores, buscando parcerias com firmas que estejam mais próximas geograficamente. A depender da escala do rearranjo, a retomada do crescimento pós-pandemia pode ser mais demorada, levando mais tempo para que as cadeias voltem às suas configurações originais.

Desequilíbrios Econômicos e Sociais Profundos

Caso a crise leve a problemas estruturais mais graves, o desempenho econômico será pior do que o imaginado. Os desequilíbrios estruturais vão desde a quebra de grande número de empresas até o desemprego muito alto e um aumento acentuado na pobreza. Quanto mais potentes esses problemas, maior será o impacto negativo sobre a economia.

A Possibilidade de Crise Financeira

Com a crise, famílias e empresas estão vendo o dinheiro que entra todos os meses diminuir consideravelmente. Isso pode levar a problemas de pagamentos de empréstimos, afetando os sistemas financeiros dos países. Em países mais desenvolvidos, esse risco é menor, por haver mais solidez no setor bancário e pelos esforços que estão sendo feitos de aumentar a liquidez da economia.

O Cenário em Países em Desenvolvimento

Nos países em desenvolvimento, a crise pandêmica pode levar a uma fuga de capitais. Isso significa que o capital colocado por estrangeiros na economia pode ser retirado em ritmo acelerado, com pouco dinheiro novo entrando. Isso pode levar a desvalorizações das moedas locais, trazendo dificuldades para os países que não têm reservas para conter variações fortes no câmbio.

O Protecionismo

O estudo do Ipea prevê a possibilidade de restrições ao comércio internacional crescerem em decorrência da crise. Isso porque os países tentariam proteger suas economias, estimulando a produção interna de bens e aumentando as barreiras para as importações.

O Fator Político

O documento publicado pelo Ipea fala em “possíveis instabilidades políticas” que podem ocorrer em diferentes partes do mundo – principalmente em países em desenvolvimento. O estudo não entra em detalhes sobre a natureza desses eventos nem onde especificamente eles poderiam ocorrer.

  • CENÁRIOS PARA A EVOLUÇÃO DO COMÉRCIO MUNDIAL

A Construção do Modelo

Considerando fatores de alta volatilidade que podem interferir nos rumos da economia mundial durante e após a crise, o estudo coloca cenários para a variação do PIB (Produto Interno Bruto) global em 2020 e 2021. Esses cenários servirão de base para as projeções sobre o comércio internacional.


TRÊS CENÁRIOS PARA CADA ANO


Os cenários foram considerados antes do FMI (Fundo Monetário Internacional) publicar sua estimativa de queda de 3% na economia global em 2020. Nesse sentido, a projeção do fundo está mais alinhada com o cenário pessimista utilizado pelo Ipea, em que a redução da atividade mundial em relação a 2019 é de 3,5%.

O estudo considera três cenários para cada ano (2020 e 2021), os quais podem se intercalar. Ou seja, em 2020 pode ocorrer um cenário pessimista, mas no ano seguinte o desempenho ser mais próximo ao otimista, o que gera nove combinações diferentes de trajetórias para a economia global.

COMÉRCIO EM 2020 E 2021


Os cenários projetados pelo Ipea são de forte retração do comércio em 2020, mesmo quando há um olhar otimista, o qual é equivalente a 15%, já no pior dos casos a retração é de 25%, enquanto em 2021, o cenário é de aumento em 4%, 7% e 10%, mostrando uma tendência de alta para esse ano.

O cenário base

O cenário básico construído pelo estudo mostra uma queda de 20% no comércio internacional em 2020. A partir daí, é possível estimar qual seria o impacto acumulado entre 2020 e 2021, como mostra o gráfico abaixo.


QUEDA DE 20% EM 2020


Na combinação dos cenários medianos – queda de 20% em 2020 e alta de 7% em 2021 –, o resultado acumulado em dois anos é de redução de 14,4% no comércio global.


  • OS CENÁRIOS OTIMISTAS E PESSIMISTAS

Os cenários otimista e pessimista mostram como a volatilidade da crise é alta. O melhor cenário possível – onde o comércio cai “apenas” 15% em 2020, mas cresce 10% em 2021 – resulta em uma perda acumulada de 6,5% do comércio internacional. Já o pior – onde há queda de 25% em 2020 e alta de 4% em 2021 – resulta em uma redução de 22% do comércio em dois anos.

QUEDA DE 15% EM 2020


QUEDA DE 25% EM 2020

O esperado pela Ipea, dessa forma, é que em dois anos, mesmo com um intervalo alto, todos os cenários previstos são de queda entre 6,5% e 22%.


  • O PESO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL NO BRASIL

De acordo com o Nexo, o Brasil tem um papel de destaque no quadro internacional de comércio, principalmente no que diz respeito aos mercados de commodities, os quais a soja, petróleo e minério de ferro são os produtos mais vendidos pelo país ao exterior. Já entre as mercadorias que o Brasil mais compra estão bens usados em processos produtivos, como fertilizantes, peças de carro e produtos da indústria de transformação. Em 2019, o saldo da balança comercial – exportações menos importações – foi o menor desde 2015.

US$ 48,04 bilhões foi o saldo da balança comercial em 2019. Seja pela desaceleração da economia global, pela limitação de transporte de produtos ou pelo possível aumento de restrições ao comércio – caso das medidas protecionistas alertadas pelo Ipea –, a queda no cenário comercial internacional deve afetar o Brasil. Por um lado, o setor exportador pode encontrar obstáculos para vender no exterior e ter queda significativa de receitas, mesmo com o real desvalorizado frente ao dólar. Por outro, quem depende de insumos importados para manter sua cadeia produtiva de pé pode ter dificuldade em comprar as mercadorias necessárias. Isso porque o dinheiro a entrar na empresa pode sofrer uma queda brusca, e também porque o câmbio alto encarece os produtos comprados fora do país.

O comércio exterior, portanto, sofreu com os impactos da pandemia tanto quanto qualquer outra área, ainda mais sendo suscetível a questões sociais, políticas e econômicas. A crise econômica trará ainda mais consequências negativas, entretanto, não será impossível recuperar o comércio internacional. Através de esforços e ações que poderão ajudar a economia global a ter um desempenho melhor, o crescimento gradual de importações e exportações ocorrerá no decorrer dos próximos anos.


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