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INSTABILIDADE: MUDANÇAS, ESTIAGEM E PODER DE COMPRA



Atualmente, nosso setor produtivo tem passado por reformulações em virtude de rápidas mudanças na realidade comercial. Seja no mercado interno ou mercado externo, muitos produtos têm perdido destaque enquanto outros passam a abarcar mais espaço nas prateleiras.


Entre os setores que têm passado por mudança, dois são extremamente importantes tanto para nossa balança comercial quanto para a população em geral: o setor agrícola e a pecuária.


Por serem os principais vetores da nossa exportação, esses produtos são de extrema importância para manutenção de um superávit econômico com países como a China, Estados Unidos e algumas outras nações parceiras na Europa, o que mantém grande parte da nossa arrecadação pública e da nossa política cambial.


Entretanto, recentemente alguns produtos que há alguns meses eram destaque incontestável no mercado interno, ou no mercado externo, passaram a perder predominância em razão de mudanças climáticas, de demanda e de sazonalidade. Nisto, muitos produtores têm optado por uma troca dos principais insumos produzidos por produtos que possam se adequar melhor a esta realidade.


A seguir elaboramos alguns breves tópicos que ajudam a explicar estes fenômenos para que possamos compreender como esta nossa perspectiva produtiva afeta os produtores e os consumidores:


A INVERSÃO DOS SUÍNOS E AVES SOBRE A CARNE BOVINA NO EXTERIOR


É extremamente perceptível a alta ocorrida nas exportações de carne de frango em 2021. Segundo uma matéria do G1 em conjunto com a ABPA, foram exportadas 1,846 milhão de toneladas de frango, ocasionando um faturamento de 2,826 bilhões de dólares no primeiro trimestre do ano. Os números apontam um aumento de 4,6% e 4,8%, respectivamente, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Os estados que lideram a exportação são Paraná, com 737,1 mil toneladas; Santa Catarina, com 3999,9 mil toneladas e Rio Grande do Sul com 287,8 mil toneladas. Já os principais destinos do frango se destacam Filipinas, Rússia, Reino Unido e Chile. Nas palavras de Ricardo Santin, presidente da ABPA, “o bom ritmo das vendas de carne de frango para o mercado internacional vem ajudando a equilibrar a pressão gerada pelos custos de produção às empresas que têm acesso às exportações, que representam em torno de 70% das plantas sob inspeção federal. ”


Em contrapartida, a carne de porco apresentou um leve declínio no mês de maio, uma queda de 0,3% em comparação ao ano passado. No entanto, apesar da queda em quantidade, as exportações de carne suína apresentaram uma receita de 523,2 milhões de dólares, um aumento de 11,1% em relação ao mesmo período do ano passado.


Assim como ocorre com o frango, os estados da Região Sul se destacam na exportação de carne suína. Já os principais compradores do produto são China, Uruguai, Argentina e Vietnã.


Esse crescimento desses produtos se deu em contraposição a um declínio na venda de carnes bovinas. Segundo outra matéria do G1, a produção registrada no início de 2021 foi 10% menor do que a registrada em períodos do ano passado, a menor marca histórica desde 2009.


Constata-se assim que o desempenho tradicional do abate de bovinos fugiu da sua curva histórica e apresentou queda considerável, a qual foi aproveitada por outros produtos de origem animal que tiveram suas vendas impulsionadas. Entretanto, há de se destacar que no caso do gado produtor de leite, houve uma manutenção da estabilidade que foi no sentido oposto à queda do gado de abate.


OS IMPACTOS NEGATIVOS DA SECA SOBRE A PRODUÇÃO


A água é recurso fundamental para a vida no planeta Terra, todos os estratos da biosfera dependem diretamente dela, a espécie humana, utiliza-a não só para o consumo direto, como na produção dos mais diversos produtos, inclusive, na indústria alimentícia; portanto, a escassez de água condiciona à escassez de alimentos e de insumos básicos.


A estiagem é um fenômeno presente em todos os continentes do planeta, que gera muitos problemas, seja pela baixa disponibilidade de água para consumo quanto para irrigação. No Brasil, já é um evento perene na região do semiárido nordestino, onde registra períodos de maior e menor gravidade. Segundo o Portal Embrapa, a cada século, há uma média de 20 anos de seca, bem como existe uma ciclicidade nesses eventos, que ocorrem mais dramaticamente a cada 13 anos.


Entretanto, com a homeostase dos biomas mundiais (e especialmente brasileiros) ameaçada através da expansão desmedida e carecida de um manejo ambiental adequado dos latifúndios, o desmatamento progressivo não só vem agravando as regiões onde a seca já era conhecida, como ampliando as áreas que sofrem com este fenômeno; recentemente, nas áreas agropecuárias da região Centro-Oeste, Sul e Sudeste, a seca prolongada do último ano trouxe prejuízos na produção de grãos (uma queda de aproximadamente 9,6 milhões de toneladas) bem como o custo da carne bovina – que devido à redução das áreas de pasto, à baixa disponibilidade de gado e o aumento no preço dos grãos, bem como a inflação, levaram a uma inflação acumulada de mais de 35% do valor do alimento em relação ao 1º trimestre do ano de 2020, com dados da Folha.


MAIS IMPACTOS NEGATIVOS SOBRE O PREÇO DOS ALIMENTOS


Com a seca e as mudanças produtivas de culturas no campo para culturas de alimentos que dependem de menores quantidades de água, a disponibilidade de alimentos mais sensíveis ao clima e mais dependentes de água deve diminuir. Levando a um aumento em seu preço.


Mesmo no caso de produtos que são conhecidos por precisarem de pouca irrigação como o milho, há registros de queda da produção em decorrência da estiagem. Esse fator preocupante tem mais impacto sobre pequenos e médios produtores, os quais são os principais responsáveis pela produção e fornecimento de produtos para o mercado interno.


Com isso, segundo matéria do G1, nota-se a inflação nos preços de vegetais e carnes que antes eram tidos como alternativas a outros produtos que já estavam num ciclo de inflação maior, comprometendo ainda mais o poder de compra do brasileiro comum que já passa por dificuldades e insegurança alimentar na pandemia.


Ademais, ainda segundo a matéria, é descrito que estes impactos estão alterando não apenas a compra, mas também as técnicas de preparo dos alimentos. Assim, destaca-se uma preferência maior por produtos processados, lanches e marmitas mais simples que possam ser preparados com baixo custo. Nisto, percebe-se uma degradação na qualidade nutricional e a exposição da população a cenários menos saudáveis de consumo em decorrência da baixa renda e do baixo poder de compra.


ALTERNATIVAS PARA PEQUENOS PRODUTORES


Um projeto da Câmara dos Deputados foi estabelecido dia 08/06, no qual aprovava um auxílio para agricultores familiares no valor de até R$ 3.500,00, por conta da pandemia, e deve valer até 31 de dezembro de 2022. Essa proposta agora vai seguir para o Senado.


De acordo com o projeto, os valores estabelecidos para o benefício foram os seguintes: R$ 2.500,00 por unidade familiar; R$ 3.000,00 quando o benefício for destinado à mulher agricultora familiar; e até R$ 3.500,00 quando o projeto de estruturação contemplar implementação de fossas sépticas, cisternas (depósito ou reservatório que serve para captar, armazenar e conservar a água, podendo ser da água potável, água da chuva ou água de reúso), ou outras tecnologias de acesso à água para consumo e produção de alimentos (para incentivar a economia de água e tratamento de água e esgoto). Todos os valores serão transferidos em parcela única.


Outro ponto apresentado foi o que a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) vai contribuir com R$ 100,00 para as entidades de assistência técnica e extensão rural que elaborarem os projetos de estruturação que constam na proposta.


Além disso, muitos produtores têm optado por trocar os produtos de suas áreas de plantio o plantio para produtos que consumam menos água. Um exemplo é o milho que está sendo uma alternativa para aqueles que estavam acostumados com o plantio de flores de girassol, já que as flores tiveram queda de 66% na colheita da safra e sua florada dura apenas duas semanas. O milho possui maior rentabilidade e sua redução na produção da safra está prevista para 28%, número consideravelmente menor do que o apresentado para o girassol.


Para saber mais sobre tópicos recentes sobre exportação e desempenho de produtos no mercado interno, acompanhe os outros artigos do nosso blog!

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